Minha Melhor Amiga: quando a amizade também é uma grande história de amor

Com Mônica Martelli e Ingrid Guimarães, filme dirigido por Susana Garcia diverte, emociona e propõe uma reflexão sobre amizade feminina, maturidade, liberdade e as muitas possibilidades de ser feliz

Por Pedro Araújo

Minha Melhor Amiga é, sobretudo, um filme alegre. Daqueles que despertam uma enorme vontade de viver, de abraçar os amigos, de dizer o quanto eles são importantes e de reconhecer o papel que essas relações desempenham na construção daquilo que somos.

Estrelado por Mônica Martelli e Ingrid Guimarães e dirigido por Susana Garcia, o filme parte da amizade entre Júlia e Clara, duas mulheres na casa dos 50 anos que embarcam em uma viagem pela Europa enquanto atravessam diferentes momentos de suas vidas.

Mas talvez a grande história de amor contada pelo filme não seja aquela que tradicionalmente esperamos encontrar no cinema.

É a amizade.

Outras formas de amar

Minha Melhor Amiga desloca o lugar onde tradicionalmente somos ensinados a procurar nossa realização afetiva. A felicidade não está necessariamente no encontro com um grande amor romântico.

Isso não significa que a amizade deixe de ser também uma relação de amor. Muito pelo contrário. O filme parece justamente nos lembrar que existem muitas maneiras de amar e que algumas das relações mais profundas das nossas vidas não passam pela conjugalidade ou pelo romance.

A amizade aparece como presença, cumplicidade, memória, cuidado e, principalmente, como aquele estado de espírito que determinadas pessoas são capazes de provocar em nós.

E tudo isso é contado com muita leveza.

O filme arranca boas risadas, emociona e tem um ritmo gostoso. As paisagens de Portugal e Espanha ajudam a construir essa atmosfera de viagem, liberdade e descoberta.

Quando a vida real invade a ficção

Existe ainda outro elemento que torna Minha Melhor Amiga particularmente interessante: em muitos momentos, a fronteira entre realidade e ficção parece desaparecer.

E há uma razão para isso.

O longa é inspirado nas experiências vividas por Mônica Martelli e Ingrid Guimarães em suas viagens com as próprias filhas. A amizade que vemos na tela tem como matéria-prima uma amizade que existe fora dela.

Talvez por isso algumas cenas transmitam uma sensação tão particular de intimidade. Em determinados momentos, temos a impressão de que não estamos mais assistindo apenas às personagens Júlia e Clara.

São Mônica e Ingrid que parecem estar ali.

Duas amigas rindo, discutindo, viajando, compartilhando confidências e reproduzindo diante das câmeras uma intimidade construída muito antes do filme existir.

Talvez esteja justamente aí uma de suas maiores forças.

Uma sala de cinema cheia de mulheres

Mas houve algo que me chamou muita atenção também fora da tela. A sessão em que assisti ao filme estava completamente lotada.

Primeiro, é maravilhoso entrar em uma sala cheia para assistir a um filme brasileiro. Celebrar o cinema nacional dessa maneira já seria motivo suficiente para comemorar.

Mas havia outra característica muito evidente naquela plateia: eram muitas mulheres. Muitas mesmo!

Uma sala praticamente tomada por mulheres reunidas para assistir a um filme cuja principal história de amor é justamente a amizade entre duas mulheres.

E isso me parece particularmente significativo.

Historicamente, as mulheres foram muitas vezes colocadas em posições de rivalidade entre si, enquanto a relação heterossexual e a construção da vida em torno de um parceiro masculino foram apresentadas como caminhos privilegiados para a felicidade feminina.

Minha Melhor Amiga brinca justamente com essa construção.

E havia algo ainda mais bonito acontecendo naquela sala: o público não estava apenas assistindo ao filme. Estava vivendo o filme junto com elas.

As pessoas torciam, vibravam a cada conquista das personagens, riam alto, batiam palmas e reagiam às cenas de uma maneira que há muito tempo eu não presenciava no cinema.

Ao final, quando os créditos começaram a subir, a sala inteira aplaudiu. Por alguns instantes, tive a sensação de estar diante de uma apresentação ao vivo, como acontece no teatro, quando público e artistas parecem compartilhar a mesma emoção. Foi lindo de ver.

E talvez aquela reação coletiva dissesse muito sobre o que o filme havia conseguido provocar em todas aquelas mulheres: de alguma maneira, cada uma parecia reconhecer um pouco de si, de suas amigas e de suas próprias histórias naquela tela.

O medo de ficar sozinha

Clara, personagem de Ingrid Guimarães, começa a perceber que seu casamento já não existe verdadeiramente há bastante tempo.

Mesmo assim, permanece presa àquela relação porque existe algo que lhe parece ainda mais assustador: a possibilidade de ficar sozinha.

Esse medo não surge do nada.

Ele também pode ser compreendido a partir de uma sociedade que, durante muito tempo, ensinou às mulheres que sua realização deveria acontecer dentro de uma relação afetiva e conjugal, especialmente com um homem.

E o filme responde a isso de uma maneira muito bonita: existe uma diferença enorme entre estar sozinha e estar em solidão.

É possível estar sem um parceiro e, ainda assim, estar cercada de afeto, amizade, família, projetos, trabalho, liberdade e pessoas que fazem a vida valer a pena.

Da mesma maneira, é perfeitamente possível experimentar uma profunda solidão dentro de um casamento que já perdeu o sentido.

O prazer da própria companhia

Júlia, personagem de Mônica Martelli, apresenta outra possibilidade.

Independente, bem-sucedida e realizada profissionalmente, ela descobriu o prazer da própria companhia. Ao mesmo tempo, parece carregar marcas de experiências amorosas anteriores e certo receio de permitir novamente que uma relação romântica ocupe espaço demais em sua vida.

São duas mulheres na casa dos 50 anos, financeiramente independentes e profissionalmente realizadas, mas que continuam atravessadas por questões emocionais, familiares e afetivas.

E isso também importa.

O filme fala sobre mulheres maduras sem transformar a maturidade em encerramento.

Pelo contrário.

Fala de recomeços, desejo, liberdade, amizade, sexualidade, maternidade, carreira e da possibilidade de reorganizar a própria vida depois dos 50.

Leveza sem deixar de provocar reflexão

Apesar dessas questões, Minha Melhor Amiga nunca deixa de ser aquilo que me conquistou desde o começo: um filme leve, feliz, dinâmico e muito divertido.

Talvez consiga ser assim justamente porque não pretende apresentar respostas definitivas sobre como devemos viver.

Ele apenas abre outras possibilidades de felicidade.

E nos lembra que uma vida plena pode ser construída a partir de diferentes formas de afeto.

Paulo Gustavo e a amizade que permanece

Há ainda um momento especialmente emocionante: a homenagem a Paulo Gustavo.

Ali, talvez mais do que em qualquer outra passagem, a fronteira entre personagem e pessoa parece desaparecer completamente.

É difícil enxergar apenas Júlia e Clara naquele momento.

O que vemos são Mônica e Ingrid celebrando a memória de um amigo e, ao mesmo tempo, revelando a falta que ele continua fazendo em suas vidas.

A homenagem dialoga perfeitamente com aquilo que o próprio filme vem dizendo desde o início: algumas amizades atravessam nossas vidas de maneira tão profunda que passam a fazer parte de quem somos.

Uma vontade enorme de abraçar os amigos

Saí do cinema com uma vontade enorme de abraçar meus amigos.

E talvez essa seja uma das melhores coisas que um filme sobre amizade poderia provocar.

Minha Melhor Amiga é uma celebração da amizade feminina, mas também da liberdade de construir uma vida feliz para além dos modelos que durante tanto tempo disseram às mulheres onde a felicidade deveria estar.

E a identificação do público parece ter sido enorme. Em poucas semanas de exibição, o filme ultrapassou a marca de 3 milhões de espectadores nos cinemas brasileiros.

Minha sugestão é simples: vá assistir.

Vá com suas amigas, seus amigos, suas irmãs, sua mãe, sua família ou com aquelas pessoas que, mesmo sem compartilhar o seu sobrenome, você aprendeu a reconhecer como família.

Porque amor também é amizade.

E amizade também é uma forma de construir família.

Serviço

🎬 Minha Melhor Amiga
Direção: Susana Garcia
Elenco: Ingrid Guimarães, Mônica Martelli, Giulia Benite e Gabi Amaral
Gênero: Comédia
Duração: 2h05
Classificação indicativa: 12 anos

📍 Sala de Arte Cinema da UFBA | Vale do Canela

Programação de 24 a 30 de setembro de 2026:

Quinta a terça-feira: 16h45
Quarta-feira: 13h20

Os horários acima correspondem à programação desta semana. Como a grade de exibição é atualizada semanalmente, recomendamos consultar a programação da Sala de Arte antes de sair de casa para confirmar os horários das sessões.

O filme também está em exibição em outros cinemas de Salvador. Consulte a programação de cada complexo.


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